Tocar no assunto de rótulos, gêneros, tribos e estilos musicais é sempre algo que incomoda, primeiro porque o artista não [...]

Tocar no assunto de rótulos, gêneros, tribos e estilos musicais é sempre algo que incomoda, primeiro porque o artista não gosta de ser rotulado daquela maneira, e segundo porque o fã muitas vezes acaba odiando um ou certo rótulo dado a quem curte aquele tipo de sonoridade. E de fato, cada dia que passa o que vemos é uma tendência de expansão dos rótulos, a música se tornou algo tão peculiar e tão misturado ao mesmo tempo que as pessoas já não conseguem mais distinguir ou encaixar uma música ou um artista em um ou outro rótulo: o rótulo é o músico.
Andando na contramão estão os críticos musicais que insistem em criar novas nomeações, e por mais extenso que fiquem, adoram decorar nomes com adjetivos e expressões cada vez mais confusas e intrigantes. Dessas expressões que causam indagações, o rótulo math rock ou rock matemático talvez seja dos mais estranhos, o mais interessante. Vai entender.
MÚSICA PARA NERD? GUESS NOT
O gênero que não é lá tão novo quanto os hipsters pensam que é, começou a surgir em alguns centros dos Estados Unidos dos anos 90, em cidades como Washington DC e Chicago e explodiu pouco - mas bem pouco mesmo - no meio da década quando algumas bandas que puxavam muito mais para o hardcore punk do que para o rock inglês começaram numa onda desenfreada de soarem mais barulhentas e complicadas do que o próprio punk já é.
Na verdade é a influência carro-chefe do Sonic Youth, o noise, caindo em mãos erradas de garotos que cansaram da fórmula fácil do punk sentimental californiano e tentaram soar mais anormais do que o próprio punk.

Disso daí, já sentimos um pouco do que seria esse math que tanto dizem. Uma referência aos riffs dedilhados e rápidos, aos baixos marcantes e as baterias descompassadas, que criam uma sensação de desconstrução e construção, como se estivessem sendo calculadas para baterem daquele jeito, desse efeito calculado rítmico se cria o que seria uma harmonia matemática, daí o tal math rock faria mais sentido do que simplesmente dizer que é música para nerds.
O problema é que - e é o que desmente todo essa prepotência indie - a raiz do math está muito mais para o punk emo e berrador do que para as cultuadas influências jazz que só foram aparecer em alguns momentos mais tarde. Na ponta dessa ponte punk rock versus indie matemático, estava o Cursive, garotos com muita energia, disposição para o barulho exacerbado e sem medo de serem felizes. Mas obviamente nasceram punks e morreram punks, sem deixar de ressaltar claro que foram bem influentes durante sua existência.
Cursive - Pulse
Cursive - Tides Rush In
A CONVIVÊNCIA COM O POST-ROCK

Mas o gênero só viu sua primeira guinada para o indie quando os caras do June of 44 apostaram numa viagem mais puxada pra o post-rock depressivão e carregado de melancolia confusa. Numa atmosfera mais calma e devagar, o gênero ficou mais puxado para o jazz que dessa vez passa a ser uma influência constante, alternando entre o punk noise e o jazz ambient de uma maneira extremamente singular. Sem falar que nessa época o post-rock meio que andava grudado com o math rock como irmãos gêmeos que se distinguem em poucos aspectos, então muita coisa acabou sendo sugada do próprio post-rock.
June of 44 - June Miller
June of 44 - Mooch
Também são facilmente citados nessa atmosfera os estadunidenses do Slint, que faziam um post-rock fodido em Louisville, no Kentucky, e davam um retrato bem soturno das suas vidas em músicas como Washer, Good Morning, Captain e Breadcumb Trail.
Slint - Breadcumb Trail
Slint - Good Morning, Captain
Slint - Washer
Em consequência dessa pegada nova, houve uma exploração constante nas bases, nas construções dos ritmos e das harmonias. De tanto cuidado com as bases instrumentais, muitas bandas acabaram criando apenas faixas instrumentais, uma coisa meio peculiar no gênero. Peculiaridades a parte, é de conhecimento geral que a brasileira Hurtmold na verdade foi uma banda de math rock que voou em outros gêneros até virar o multiinstrumental que lhe cabe melhor como rótulo hoje.

Mais recentemente, lá pelos anos de 1997/99, o math rock viu a sua derradeira inclinação para o indie. Com a banda The Mercury Program, o estilo viu seu lado extremamente instrumental e soturno lhe caber para riffs métricos que se construiam na mesma velocidade que sumiam e apareciam, enquanto a bateria vinha tirar e colocar a ordem nos compassos da música. Era a virada perfeita para a próxima fase.
The Mercury Program - Over This Land
The Mercury Program - This Hits Home
The Mercury Program - Miles Among Miles
O MATH SENDO MATH

Antes disso, tá, existe um terceiro grupo de pessoas que gostam de rótulos para se encaixarem. E os Don Caballero gostavam de ser matemáticos. Talvez únicos numa época de gente que abusava do grunge e do skate punk, o grupo de Pittsburg sabia como meter as mãos pelos pés e confundir cada vez mais a perspectiva de harmonia que a galera do punk era acostumada.
Imagine uma época em que todas as bandas tocavam músicas no geral compostas de: três a quatro acordes, baterias sem muita criatividade, linhas de baixo que acompanhavam a guitarra e letras que falavam da vida junkie de se morar em Seattle, ou de ser um punk nos anos 90 numa praia da califórnia cheias de garotas que cortavam seu coração porquê sim, elas não eram sentimentais o suficiente para a sua baboseira emocore.
Agora pense em criar músicas na maioria sem acordes, mas sim dedilhadas. Esses riffs dedilhados seriam rápidos e cortados, alternados entre dois guitarristas e criando arpejos e sequências que iam se modificando de maneira independente. Aliado a isso, a bateria seria como a de jazz, totalmente independente, guiada por ela mesma e dando a si própria o ritmo. O baixo também teria liberdade para abusar dos grooves e se manter destacado, e não sumido como os punks fazem. A preocupação com o ritmo tiraria a pressão das letras, as músicas seriam totalmente instrumentais e sendo assim, abertas a interpretações.
Don Caballero - Fire Back About Your New Baby's Sex
Don Caballero - Ones All Over the Place
Don Caballero - Details on How to Get Iceman on Your License Plate
Sim, o Don Caballero fez a revolução dentro da revolução. Enquanto todo mundo achava que grunge era o novo hippie os caras já tinham manjado tudo e estavam fazendo música para eles mesmos: daí porque não estouraram e ficaram no ostracismo das bandas underground dos anos 90.
O MATH PARA AS MASSAS - OU O NEW MATH ROCK

Depois de dar muito o que falar entre os becos mais alternativos dos Estados Unidos - que sempre deu frutos fodas de gente que sabe fazer música pra si mesmo - o math rock cruzou o Atlântico e começou a dar as caras nas terras britânicas. Bandas como o Youthmovies Sountrack Strategies ou somente Youthmovies, que começou em 2002 e nos seus primeiros anos deu cara ao novo math rock, mais calibrado no que o Don Caballero vinha fazendo e adicionando pitadas de krautrock nas composições, o estilo se renovou: ainda muito vinculado ao meio que nasceu, ou seja o emo punk, mas com uma faceta que tinha tudo pra se desenvolver para o indie jazz.
Youthmovies - The If Works
Youthmovies - Spooks the Horse
As composições soavam - pelo menos ao que se refere ao instrumental - muito mais para o indie, mas daí só precisava o vocalista abrir a boca e fodia tudo: a influência para o punk adolescente era evidente. Outras bandas mais recentes sugam esse espírito mas soltando bases realmente inspiradoras. Exemplos são as faixas Billie Jeans do Pennines, que dá o toque colegial do punk dos anos 90 mas ao mesmo tempo é math rock puro. Deuce Love do Super Tennis que tem uma base totalmente invertida e assimétrica e regurgita um berreiro entre riffs de jazz matemático, que é sempre isso: calculado, bastante melancólico e quando não isso, bastante enérgico. O Edmund Fitzgerald foi uma das bandas que mais impulsionaram sem querer todo esse vínculo do math rock com o indie. Composta pelos conhecidos Yannis Philippakis e Jack Bevan e a guitarrista rítimica Lina Simon, de trabalhos concretos mesmo a banda não tem nada realmente, nada que não sejam apenas demos. Mas a obra do grupo é demonstrar o tipo de sonoridade que iria dar tom a partir de então. O vocal é finalmente é mais leve e desleixado no lugar daquele tom de adolescente norte-americano, dando um toque mais britânico e por isso diferenciado do estilo.
Pennines - Billie Jeans
Super Tennis - Deuce Love
Edmund Fitzgerald - Two Broke Kids Bikes/These Wet Houston Driveways
Edmund Fitzgerald - Bobby Durst

Nessa leva nova, aonde bandas como Foals começaram a se destacar, a influência da música eletrônica e do dance deram o novo formato do math rock: aliar as bases confusas com baterias dançantes, pulsantes, sintetizadores, e novos instrumentos e efeitos: no meio desses arranjos meter uns delays, reverb, synths, umas coisas para darem graça e deixarem a coisa mais interessante ainda. Veio a tona o termo dancepunk que nunca pegou muito mas que ajudou a entender essa nova fase. Vieram junto também bandas como Battles, 65daysofstatic e o Minnaars que abusaram dos elementos eletrônicos.

Bandas como Hella, This Town Needs Guns, Maps and Atlases e Tera Melos também são citadas nesse meio confuso, melancólico, expressivo e único do math rock. Ao decorrer dos últimos anos, bandas como o Bloc Party, Two Door Cinema Club e Bombay Bicicle Club já se apropriaram de uma coisa ou outra do estilo. De fato, é um gênero específico demais para cair no popular: são músicas no geral muito instrumentais, muito subjetivas e sem muito apelo ao pop, mas a sua influência é evidente pra quem gosta de música experimental e ver graça nas músicas puras e feitas para nada além mais do que a própria degustação, e sendo assim, o math rock é um prato cheio de gosto.
Minnaars - Busy Hands
Foals - A Sketch for ESG
Foals - Brazil is Here!





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