Steven Ellison é um produtor de estilo único num mundo de apáticas produções pouco imaginativas e estéreis demais. Pelo menos [...]
Steven Ellison é um produtor de estilo único num mundo de apáticas produções pouco imaginativas e estéreis demais. Pelo menos era assim que a música eletrônica se situava em 2006, com o drum&bass em decadência, o trance saturado, house esquecido e o techno minimalista ascendente. Num mundo aonde a IDM tinha sumido e o Aphex Twin tinha se tornado apenas um resquício de genialidade de anos atrás, esse jovem produtor de vinhetas comerciais tinha nas suas mãos as influências mais distintas para recriar sua música e assim dar vida uma atmosfera que só FlyLo seria capaz de representar. Unindo a música negra de suas origens (ele é sobrinho-neto do músico John Coltrane) ao eletrônico, 1983 marca a entrada e a ressurreição dos nomes da música atmosférica experimental eletrônica: ali tem LTJ Bukem, Aphex Twin, Billy Preston, Portishead e Kool and the Gang, todos representados de maneira distinta.

Nessa leva de misturas, o compositor abre leques de mil possibilidades para sua música baseada em beats quebrados, samples multiplicados e chiptunes delicados. A primeira sensação é de ouvirmos um jam de jazz calçado em chips e leads analógicos de maneira tão, mas tão natural que impressiona.
A primeira faixa-título é sobre uma viagem. Uma imersão de volta ao ano de 1983, ano onde a música foi tão expressiva. Uma leva de teclados gordos e interestelares tomam conta da leva obscura e soturna, até que evidentemente a música cai num trip hop delicioso que lembra muita coisa boa dos anos 90, mas regurgita isso num bassline em 8 bits que parece sair de um console de videogame quebrado. Não obstante, os pads são a ode ao melhor dos tempos do soul e do jazz.
1983
Sao Paulo cai num loop de percussão levemente hip house, enquanto um órgão suave cai melancólico entre os claps e hats. A construção da imagem é evidente: a música parece uma viagem de metrô, os compassos soam como o mundo passando em alta velocidade lá fora, e a pausa, lá pelos 2 minutos é parar numa estação com muito samba rolando.
São Paulo

Bad Actors é uma harpa koto brincando de soul, trilha sonora para um momento desavisado, interlúdio para os dias cinzentos, para as viagens garantidas, trip hop sujo. Orbit Brazil tem um quê de liquidfunk, enquanto as batidas são rápidas e evidentes, FlyLo evita fórmulas, sua música não é previsível e soa como um jogo de adivinhação constante: não se sabe a idéia que vira nos próximos 32 beats. Aliás, sua música é recheada de idéias embutidas, de dimensões diferentes e incompletas. As faixas se completam e se revezam, as camadas delas são confusas, hipnóticas e orgânicas. Um retrato surrealista de uma realidade anaeróbica.
Bad Actors
Babble está mais para Hubble, a música te joga pra fora da terra e imerge em órbita com seu baixo caindo fora da compressão e servindo de intro para Pet Monster Shotglass, incrível por saculejar no loop de hip hop com synths estranhos, buzinados e picotados. A música é uma vertigem inconstante de paisagem incrível e caleidoscópia, tem tanta coisa coisa ali, acontecendo ao mesmo tempo, que se perder na imensidão dela é tão evidente quanto se localizar no universo. A música é estrelar, espacial, virtual, inerte e inerente.
Babble
Pet Monster Shotglass
Na sequência, Hello aposta num teclado dedicado e em um mergulho no jazz alienígena, carregado de isótopos falantes e beats orgânicos. Untitled #7 é sobre rewinds, harmonias no melhor estilo Paul Lansky e uma percussão pilotada na melancolia evidente e profunda de sua música.
Hello
Untitled 7
Unexpected Delights é a bossa nova eletrônica, regurgitando Elis Regina na pele de Laura Darlington, flautas delineantes, bongos e xilofones, pianos, baixo leve e a maravilhosa sensação de uma dança tardia na quietude de todos aqueles sons. É a maneira perfeita de encerrar um álbum de estréia com 10 faixas merecidamente organizadas da maneira que foram: causando a inconstante fórmula de não se ter fórmulas.
Unexpected Delights
E é nesse caminho que o produtor é único. Sua música é imprevisível do começo ao fim, criando laços entre os mais distintos gêneros para dar ar a algo sem rotulação definida: enquanto sua música pode parecer o puro hip hop experimental, do nada ela cai no samba, ou numa casa de jazz, pra depois ganhar o espaço com seus barulhos interestelares e voltar ao mundo para voar em direção aos percussivos ritmos terrestres, e depois se dirigir a próxima boate futurista para dar vida a trilhas sonoras de ficção científica. Por isso e por outros vários méritos, o neto-sobrinho dos Coltrane cada vez mais se evidencia como referência musical, parada obrigatória para quem quer entender de uma vez por todas que a música pode e deve se reinventar sempre.

Nessa leva de misturas, o compositor abre leques de mil possibilidades para sua música baseada em beats quebrados, samples multiplicados e chiptunes delicados. A primeira sensação é de ouvirmos um jam de jazz calçado em chips e leads analógicos de maneira tão, mas tão natural que impressiona.
A primeira faixa-título é sobre uma viagem. Uma imersão de volta ao ano de 1983, ano onde a música foi tão expressiva. Uma leva de teclados gordos e interestelares tomam conta da leva obscura e soturna, até que evidentemente a música cai num trip hop delicioso que lembra muita coisa boa dos anos 90, mas regurgita isso num bassline em 8 bits que parece sair de um console de videogame quebrado. Não obstante, os pads são a ode ao melhor dos tempos do soul e do jazz.
1983
Sao Paulo cai num loop de percussão levemente hip house, enquanto um órgão suave cai melancólico entre os claps e hats. A construção da imagem é evidente: a música parece uma viagem de metrô, os compassos soam como o mundo passando em alta velocidade lá fora, e a pausa, lá pelos 2 minutos é parar numa estação com muito samba rolando.
São Paulo

Bad Actors é uma harpa koto brincando de soul, trilha sonora para um momento desavisado, interlúdio para os dias cinzentos, para as viagens garantidas, trip hop sujo. Orbit Brazil tem um quê de liquidfunk, enquanto as batidas são rápidas e evidentes, FlyLo evita fórmulas, sua música não é previsível e soa como um jogo de adivinhação constante: não se sabe a idéia que vira nos próximos 32 beats. Aliás, sua música é recheada de idéias embutidas, de dimensões diferentes e incompletas. As faixas se completam e se revezam, as camadas delas são confusas, hipnóticas e orgânicas. Um retrato surrealista de uma realidade anaeróbica.
Bad Actors
Babble está mais para Hubble, a música te joga pra fora da terra e imerge em órbita com seu baixo caindo fora da compressão e servindo de intro para Pet Monster Shotglass, incrível por saculejar no loop de hip hop com synths estranhos, buzinados e picotados. A música é uma vertigem inconstante de paisagem incrível e caleidoscópia, tem tanta coisa coisa ali, acontecendo ao mesmo tempo, que se perder na imensidão dela é tão evidente quanto se localizar no universo. A música é estrelar, espacial, virtual, inerte e inerente.
Babble
Pet Monster Shotglass
Na sequência, Hello aposta num teclado dedicado e em um mergulho no jazz alienígena, carregado de isótopos falantes e beats orgânicos. Untitled #7 é sobre rewinds, harmonias no melhor estilo Paul Lansky e uma percussão pilotada na melancolia evidente e profunda de sua música.
Hello
Untitled 7
Unexpected Delights é a bossa nova eletrônica, regurgitando Elis Regina na pele de Laura Darlington, flautas delineantes, bongos e xilofones, pianos, baixo leve e a maravilhosa sensação de uma dança tardia na quietude de todos aqueles sons. É a maneira perfeita de encerrar um álbum de estréia com 10 faixas merecidamente organizadas da maneira que foram: causando a inconstante fórmula de não se ter fórmulas.
Unexpected Delights
E é nesse caminho que o produtor é único. Sua música é imprevisível do começo ao fim, criando laços entre os mais distintos gêneros para dar ar a algo sem rotulação definida: enquanto sua música pode parecer o puro hip hop experimental, do nada ela cai no samba, ou numa casa de jazz, pra depois ganhar o espaço com seus barulhos interestelares e voltar ao mundo para voar em direção aos percussivos ritmos terrestres, e depois se dirigir a próxima boate futurista para dar vida a trilhas sonoras de ficção científica. Por isso e por outros vários méritos, o neto-sobrinho dos Coltrane cada vez mais se evidencia como referência musical, parada obrigatória para quem quer entender de uma vez por todas que a música pode e deve se reinventar sempre.




