O trabalho do multi-instrumentista Steven Ellison é infindo, definhou anos dedicados a trilhas sonoras e música de comerciais dos canais [...]

O trabalho do multi-instrumentista Steven Ellison é infindo, definhou anos dedicados a trilhas sonoras e música de comerciais dos canais de entretenimento do Cartoon Network, principalmente no extinto bloco [adult swim]. Em todo o seu caminho experimental de produção musical, Elisson viu no seu projeto Flying Lotus a melhor definição para sua sonoridade indefinida e inclassificável, mas ainda assim produtora de um dos mais belos álbuns de 2010.
Cosmogramma é o terceiro título do produtor. O nome se refere a uma palestra dada por Alice Coltrane, sua tia-avó, pianista e harpista de jazz, viúva e ex-mulher de John Coltrane. A estrutura do álbum se dá em 17 faixas relativamente pequenas, em torno de 1 a 3 minutos, mas que mixadas numa sequência que passa rápida e consecutivamente.
Clock Catcher, faixa de entrada, é a introdução perfeita para a proposta do álbum: não ter proposta alguma. Nos primeiros 20 segundos da faixa se ouvem tantas influências distintas, samples estranhos e inexatos, baterias desalinhadas e assimétricas que da sensação de confusão se ouve uma nítida organização harmônica entre barulhos 8-bit, harpas em delay, shamisens e até...berimbaus? Sim, há milhares de oportunidades musicais e veredas pelas quais o músico arrisca se jogar e misturar até não poder mais.
Clock Catcher
Pickled! nos remete ao drum n bass atmosférico dos anos 90, no melhor estilo jam misturando LTJ Bukem e um baixista de jazz. Aliado a isso pads e contornos de sintetizadores em Lfo tomam conta de introduzir um cenário que se divide cosntantemente na luta entre o orgânico e o sintético. Sem perder tempo e na sequência, Nose Art já embala um bumbo com uma percussão em drum machine e um órgão que desliza por detrás até virar um sintetizador gotejando de maneira binaural. Isso tudo até que um baixo sawtooth caminhe e tome conta de liderar a harmonia.
Pickled!
Intro: A Cosmic Drama trata de reunir belos violinos, pads surrealistas e grandiosas harpas ao contínuo passeio instrumental da obra, ao passo que soa uma perfeita antecessora para a faixa Zodiac Shit, destaque por conseguir associar teclados atmosféricos e violinos a um baixo à la Kool and the Gang e um loop de bateria em downtempo, que me fez lembrar de bons tempos do trip hop do Massive Attack.
Intro: A Cosmic Drama
Zodiac Shit
Computer Face: Pure Being é o retrato dos anos de produção de música para canais televisivos. Soa como um background de comercial, soa como música ambiente, soa como música de computador, e ainda tem espírito para ser uma música independente de rotulações. A percussão deliciosa embala o baixo e o lead que se seguem, dando uma deliciosa sensação atmosférica.

And the World Laughts With You é outro destaque, a presença do Thom Yorke na faixa não só inspirou uma composição mais sintética, suave e obscura como sua voz também caiu como uma luva na totalização da proposta da faixa. Além de ganhar um apelo mais pop e menos experimental, foi o espaço perfeito para dosar laptop music, experimentalismo eletrônico e uma organização mais elaborada.
And the World Laughts With You (feat. Thom Yorke)
Satelllliiiiiiiteee começa um afro-beat eletrônico que dá sucessão a um rapper desengonçado e cheio de pitch, até as maravilhosas melodias dos pianos e órgãos desacelerarem o ritmo e introduzirem um nu-jazz suave e delicado.
Satelllliiiiiiiteee
Do the Astral Plane é a viagem deliciosa a um house futurista dedicado aos bons claps, melodia agradável, vocais funky e um baixo meticuloso e levemente rasgado. A percussão tem papel fundamental, assim como os instrumentos orgânicos que tomam conta ao decorrer da música, saxofones, violinos e toda a orquestração.
Do the Astral Plane
Bons momentos estão em Arkestry, que se aproveita de modulações sintéticas nada comuns e estranhas para construir sua imagem que vai gradamente entrando num jazz desenfreado por uma bateria confusa. German Haircut se envaidece nos saxofones bem dosados e nas harpas que lançam arpejos estimulosos aos ouvidos. Dance of Pseudo Nymph tem um baixo enriquecido por palmas e shakes. Tudo numa sensação incerta de latinismo inspirado numa dança bizarra de sintetizadores que insistem em mergulhar o ouvinte num kaleidoscópio de infindas influências.

Galaxy In Janaki e MmmHmm tentam construir, numa nova maneira descontraída e deliciosa, a sensação de um mundo sonoro paralelo, lembrando o bom espírito dos compositores de musica ambiente, que sempre se preocuparam em reinventar suas melodias e desconstruir até fazer algo totalmente novo e introspectivo. E instrospecção não falta em Flying Lotus, que ascende e explode conforme cada faixa, que chega ao seu final numa velocidade imperceptível e que nos deixa curioso demais para ouvir por apenas uma ou duas vezes. Cosmogramma é um álbum que permeará anos em playlists e ainda soará novo demais para épocas mais futuras.
MmmHmm feat. Thundercat
Galaxy in Janaki




